Contos e fotos
O livro São Paulo 1971-2011: História recente, versões literárias, resíduos visuais é um raro caso no mercado editorial brasileiro da edição de literatura de ficção e fotografia no mesmo volume. Há que se tomar cuidado nesses casos, no processo de edição, para resguardar a essência de cada conteúdo diante da leitura paralela, mas dito isso o resultado pode ser poderoso. Porque será, em um mundo que tem se comunicado tanto por imagens, que essas expressões pouco conversam? Em tempos de Ipad e ereaders em geral, as editoras começam a quebrar a cabeça para sair da fôrma e aproveitar as novas ferramentas, esse talvez seja um caminho inevitável, em alguns casos. Exemplos de quando essa combinação acontece são muito bem-vindos.
Página do livro São Paulo 1971-2011, mesclando literatura e fotografia.
Registros do lançamento

Da esp. para dir.: Fernando Martinho, Luciana Cavalcanti, Stephan Schmeling, Ignácio de Loyola Brandão (em cima), Vanessa Bárbara, Luiz Ruffato, Tony Bellotto (foto: Raquel Diniz)

Agência Guapa (foto: Raquel Diniz)

Autógrafos com Tony Bellotto e Ignácio de Loyola Brandão (foto: Raquel Diniz)

Convidados na Livraria da Vila, Jardins (foto: Raquel Diniz)

Convidados na Livraria da Vila, Jardins (foto: Raquel Diniz)
É hoje!
Hoje lançaremos, finalmente, o livro São Paulo 1971-2011: história recente, versões literárias, resíduos visuais. Ele já está disponível nas melhores livrarias, a um valor relativamente barato para seu formato, R$ 65, o que se deve à subvenção da lei de incentivo municipal. Os interessados também podem adquiri-lo pela loja virtual da Olhares ou por meio de um pedido para contato@editoraolhares.com.br.
Boa leitura.

Organismo vivo
Na história fantástica contada por Vanessa Bárbara no livro São Paulo 1971-2011: história recente, versões literárias, resíduos visuais, a cidade é protagonista e assiste à formação de uma fila que praticamente se transforma em um organismo vivo, lembrando uma rede social dessas de hoje em que todo mundo participa sem saber exatamente o porque, simplesmente faz parte da vida. No caso, da vida paulistana nos anos 2000. Leia um trecho:
“A fila começou a se formar às 5h30 da manhã, quando as primeiras velhinhas chegaram com suas garrafas térmicas. Avisada por uma concunhada, a aposentada Dalva Gomilde, 77, resolveu ir até lá conferir. “Algumas vizinhas já estavam no local. Àquela hora, era só uma aglomeração festiva, mas eu botei ordem na turma e foi como tudo começou”, declara. Há outras versões quanto ao início do alinhamento – uma senhora de idade na cabeceira da fila mencionou um misterioso clarão noturno e alega ter sido levada ao local durante o sono, daí ainda estar de pijamas.”
Uma das paisagens de SP nos anos 2000 cuja forma se multiplicou, a Ponte Estaiada
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Alçapão incandescente
São Paulo, 1991. No Sushigen.
A primeira imagem que me vem aos olhos (olhos mentais, aqueles que miram o lado de dentro da caixa craniana) é a do mestre Shimisu manipulando os sushis. Existe algo de prestidigitação na maneira como Shimisu prepara os sushis. É como tentar adivinhar o truque de um mágico: quanto mais você olha para as mãos dele, prestando a máxima atenção, tentando flagrar omovimento que acuse o ilusionismo, mais confuso você fica. Os verdadeiros mágicos (ou os bons mágicos) fazem você acreditar na mágica. Era assim – e é até hoje, pois imagino que o velho Shimisu san permaneça como um corpo perene atrás do balcão imutável do Sushigen – que o Shimisu atuava, mexendo as mãos como dois pequenos polvos, em que os dedos, como braços de octópodes, pareciam dançar sob águas profundas enquanto davam forma ao arroz, e depois besuntavam de wasabi o cilindro branco sobre o qual era depositada uma fatia retangular de peixe cru, um otorô que faz agora a saliva voltar à minha boca. O Sushigen fica numa galeria na Brigadeiro Luís Antônio, quase esquina com a avenida Paulista. Eu trabalhava lá como um sub-subassistente de sushiman, e além de contemplar o Shimisu e os sushis – e vigiar também o ponteiro do relógio, quase imóvel nas intermináveis horas que duravam almoços e jantares –, eu fatiava nabos e acelgas e preparava o wasabi e o gari.
*
O trecho acima é parte da trama que flerta com o estilo policial e se aproxima da origem roqueira de Tony Bellotto, que vai ao bairro da Liberdade construir seus personagens e os faz passar por situações insólitas em sua busca pelos refletores em um País sem oportunidades, no início dos anos 90.
Túnel Ayrton Senna, construído na década de 90
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O fim da ingenuidade?
“Nove e meia da manhã. Maria Aparecida caminha, saltando sobre poças d’água. Vai andar um quilômetro até chegar ao asfalto. Um lenço estampado esconde os bobes na cabeça. A capa azul de plástico transparente, oferta Mappin de duas semanas antes, dissimula o corpo bem torneado. Ela sabe que é chamada ‘a gostosa do bairro’. Antes de chegar ao ponto de ônibus, estará com os sapatos enlameados. Na bolsa leva outro par, de couro mole. Cumprimentou um e outro conhecido. Às vezes, Maria Aparecida se assusta: o que seria se alguém do Tatuapé fosse até o centro e a visse? Sente um arrepio, aquilo acabaria com a família. (…)”
Em O mistério do pai alfaiate, conto de Ignácio de Loyola Brandão, a ingenuidade é o caminho para a perdição, e Maria Aparecida desfila entre um Tatuapé ainda interiorano e o Centro de São Paulo já decadente dos anos 80.
Drive-in e sua identidade visual marcante nos anos 80
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Vídeo-release “SP 1971-2011″
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